quinta-feira, 23 de setembro de 2010

MOLEQUE CÉU

Moleque Céu
o que você faz aí em cima
com essas nuvens em desenhos
transformando em devaneios
todo olhar
que busca em você inspirações
ou atrativos filosóficos
ou esperanças de ver um querubim
ou um ovni
ou simplesmente ver os astros
mobiliando seus pastos

Eh Moleque
que canções de meteoros
tocam em seu mp1000
fazendo sucesso em todos os planetas
quais os cds voadores
a pirataria marciana
mais vende em Vênus

Ah Moleque
como pode ser assim tão aventureiro
e tão amado
pelos que sabem ouvir tuas estrelas
quantas luas e asteróides
erram em teus domínios
lentamente na velocidade da luz
enquanto o infinito
passeia em tua alma sem cautela

És o pai dos segredos
e o irmão dos mistérios
meu espelho conselheiro

Ah Moleque
quando olho para você
sinto vontade de ser livre assim também
sem deixar que meus planos
vivam minha vida
sem dosar meus passos
e somente existir
sem parar pra refletir
sem pensar em ficar,
em voltar
ou partir.

Dirceu Lindolfo

terça-feira, 14 de setembro de 2010

O MENDIGO DA POESIA

Dinheiro ex-tudo
estudo tudo
Deus totalidade
amizade presença de Deus
amor a flor que nasce no coração
querido e abençoado é o desejo
ensejo sem mágoas
nadando em águas limpas
corações magoados são como
ex-rios de capitais
e almas enganadas
são como florestas derrubadas
vamos até onde o tempo nos leva
viemos para beber a vida
a sede é imensa
a recompensa pensa seriamente
em nos deixar felizes
sem crises sem dramas
meu coração é um rio a desaguar
nas cicatrizes que a vida me tatuou
poesia sou seu mendigo
por caridade
me dê um abrigo

Dirceu Lindolfo

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

EU VOCÊ A ILHA O MUNDO

Aquilo que me faz viver e ir em frente
triste ou contente
não sei explicar
mas entendo
e às vezes consigo traduzir
pra mim mesmo em monólogo

Peço ajuda a todos
e algumas vezes a ajuda rola

Não cansarei jamais
do diálogo e da troca
de informações recíproca

Eu também sou uma ilha
você também
mas o oceano nos liga
é só entrar na embarcação
é claro que há riscos de naufragar
você pode ser a garrafa
e eu a mensagem
ou se preferir
trocamos a imagem
tanto faz
ah tem também a tinta
o papel e a rolha

Só nós dois é pouco
o jogo é bem mais louco
vamos precisar de outros personagens
vamos abrir nosso mundinho
e por mais gente em cena
pois a vida pode ser pequena
e nós dois somos grandes demais
para essa ilha

É o mundo vasto
e já anda gasto
já não dá nem gosto
vamos temperar o pasto
temos todo o tempo
vamos aproveitar
pois estamos aí
recicle seu sentimento e transcenda
acenda seu feeling babe

Ninguém é inocente
até que se prove a falta de culpa
então pra que culpar
ainda mais meu coração
se eu posso ser a mão
estendida em sua direção

Nós somos vagalumes
e alternamos em momentos
de brilhos e de negrumes

Passado opaco futuro escuro
presente reluzente
tente

Dirceu Lindolfo
(da obra "Entre os Olhos o Novo Caminho)

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

MENSAGEM DO MEIO AMBIENTE À HUMANIDADE

Dentro de Mim
tem fogo tem aço capim
tem beiras de lagos
tem roças que não tem mais fim
tem flores tem pastos
espigões brejos e estepes
florestas colméias recantos
praias de rios e mares
emanações glaciares
falésias falásias
lençóis e serras milhares

Todos os sub-produtos das chuvas
resposta às sedes de animais
e plantas e fungos e pássaros

Sou tudo o que alivia
os corações dos seres
meus poderes são da fonte
i n e s g o t á v e l
do Amor

Quero ficar com você
ser seu sustento
não sua vítima
ser seu alento
não seu lamento

Dirceu Lindolfo
(do livro: "O Contemporâneo Atemporal")

segunda-feira, 19 de julho de 2010

PONTEANDO

A vida cabe num sonho
com a viola nas mãos
e a poesia vai brotando
nos campos da inspiração
e a joalheria nos altos
são painéis expondo astros
clareando a escuridão

A pedra faz seu caminho
dormindo em mansidão
nos montes os camarinhos
clareia e dá um apagão
eu fico olhando as estrelas
admirando de vê-las
cair e não vir pro chão

Em ponteios na viola
eu sonho um mundo são
domo dez feras terríveis
que conhecem da canção
vou de um mundo pra outro
em dez arames tão loucos
caminho com minhas mãos

Quem tem amor de verdade
não alimenta ambição
quem conhece a liberdade
jamais quer ir pra prisão
e as estrelas jóias puras
com o preço nas alturas
não estão em promoção

Dirceu Lindolfo
(do livro "O Contemporâneo Atemporal"

sexta-feira, 25 de junho de 2010

MORRER SE APRENDE VIVENDO

Hoje estou aqui, escrevendo estas linhas. Devo agradecer e aproveitar. Porque passei por momentos delicados e estive para morrer no hospital. Vou contar para vocês o drama que passei uma vez e espero que nunca ocorra com vocês. QUANDO A SAÚDE QUER NOS DEIXAR INFELIZ aí começa a infelicidade aí a angústia nos abençoa. Não tem nada bom.
Há muito tempo que sofria dores de estômago. Quando sentia essas dores parecia que o mundo estava contra mim. Tomava de tudo que ouvia falar que era bom e nada de melhorar. Exame assim de hospital nunca fiz pois tinha medo. Até orações também tentei. Também não virou. Vomitava demais. Quando doía pra valer a última coisa que pensava era em alimentação.
Assim seguia e prosseguia em frente pela vida apesar de tudo. Um dia quase não levantei do chão quando deitei para com a barriga para baixo esperando que aquela dor que me queimava como um vulcão queima a água me abandonasse. Que nada - pensei que ia morrere fui levantando devagarinho e caí no chãocontinua

quarta-feira, 23 de junho de 2010

A ROSA DO INFINITO

É fácil dar golpes
recebê-los, é um pouco mais difícil
E o amor vai ficando impossível

Se não abrir
não tem porque fechar

O chão dá flores
o cimento tédio
e o remédio é ódio para a doença

A boa crença se apresenta
no silêncio da presença

Quando me assentei
no banco dos réus da memória
minha consciência me deixou ciente,
e, impaciente
me vi paciente do azul
do fogo da lembrança
que fez de mim
o que bem quis

Mas,
uma pétala da rosa do infinito
lambeu minha língua
e a poesia me falou:
"Te amo"

Dirceu Lindolfo - do livro
"O Contemporâneo Atemporal"


terça-feira, 22 de junho de 2010

INFANTICITY - A AGONIA DAS INFÂNCIAS

Mapeio a infância dos ricos. Com temor vejo-as saindo para as escolas em ônibus que as buscam na porta de casa. Não há caminhada, companhias de amigos, espera na entrada, troca de figurinhas, amarelinha, esconde-esconde ou outras brincadeiras enquanto esperam a primeira aula. Chegam e entram. Podem até esquecer a tarefa do lar, mas jamais o celular, contato de primeiro grau. Nenhum relacionamento com estranhos, novas amizades parece crime. Uma tossinha vai ao hospital fazer uns quinze exames. A mensalidade escolar e o transporte é maior que o salário de mais da metade dos trabalhadores do país. Quando acaba as aulas vão para para suas casas, que parecem presídios de segurança máxima, é quase noite, então jantam, e ligam a tv de plasma ou LCD e pasmam diante de 760 canais, ou se deliciam com as amizades virtuais em seus pcs. Os pais, depois de se escalpelarem no inferno dos trânsitos por 2 ou 3 horas chegam e vêem seus anjinhos dormindo o sono dos justos. Amanhã será outro dia.
Filmo a infância dos pobres. Com pavor fotografo-as saindo de manhã com alguma companhia (muitas vezes um cachorrinho) ou sozinhas empurrando um carrinho e escolhendo no lixo o que sobrou do consumismo para venderem, ou algum resto de alimento para o café da manhã, um agasalho para o frio, um brinquedo quebrado quem sabe. Sonham acordados porque à noite é difícil sonhar na rua com a possibilidade de morrer, de frio ou da maldade comum dos perigos da noite. Seus pais não chegaram, seus pais não voltaram do trabalho, seus pais os fizeram e os entregaram para a vida de presente. Ninguém cuida dessas crianças mas a vuvuzela. BRASIL!

quinta-feira, 17 de junho de 2010

DESEJOS DE UM POETA

Eu sonho sei não vou mentir
e ouvi dizer, não lembro quem
que o futuro já está aí
mas o passado quer voltar também

Mas eu quero viver o tempo do enquanto
como a vida no vôo de uma ave
e assim somente vista de um canto
da varanda de um sítio, numa espaçonave

Da noite das estrelas quero um manto
do dia de um sol quero uma frase
da vida quero sempre este encanto
e do Portal do Amor quero a chave

Das famílias da terra quero todos sãos
e das famílias do infinito as bênçãos

Dirceu LINDOLFO
(do livro "Observando as fotos do futuro")

sexta-feira, 11 de junho de 2010

PROCURANDO FERRUGENS NO TEMPO

NASCE A manhã como um sorriso
criança olhando avante sem medo
olhar no acontecendo sem aviso
e o tempo dispara sem segredo

E a chuva tempera outro verão
eu que vivo e viajo novamente
não espanto sou trem na estação
os vagões a lembrança dessa gente

Meus ouvidos tão atentos passareiam
pelos campos e montanhas tão mineiras
meus olhares atrevidos incandeiam
entre as aves que avoam tão ligeiras

Estradinhas de chão empoeiradas
morenas tapeçarias, rudes, belas
são caminhos mansos, sossegadas
querem bem quem tá pisando nelas

O vento, a chuva, folhas ao chão
as árvores dançam olhando as nuvens
o café no moinho fazendo canção
no tempo novinho não acho ferrugens.

Dirceu Lindolfo

terça-feira, 16 de março de 2010

A FONTE E O LOBO


O Lobo bebe na Fonte
por isso deve amá-la

A Fonte mata a sede do Lobo
por isso o ama

Ele fez sua casa próximo à Fonte
A Fonte vai para o infinito
o Lobo é mais limitado
mas sempre entra na Fonte
e se sente bem dentro dela

















O Lobo é inconstante
mas a fonte não se abala

O Lobo protege a Fonte
mas a Fonte é sua proteção
O Lobo é solitário
A Fonte é solidária
O Lobo tem a sede
A Fonte é a séde
O Lobo não tem medo
A Fonte é a coragem
A Fonte é o espelho
O lobo é a imagem


Dirceu Lindolfo
(do livro Entre os Olhos
o Novo Caminho)

Desenho de Giovana de Souza

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

NARRATIVA DE UMA VIAGEM

É noite e saímos eu e meu amigo Marcelo (o mágico Marcel Goom) rumo à rodoviária da Barra Funda para embarcarmos para Ubiratã. Estamos levando as violas. Dentro do ônibus conhecemos uma enfermeira paraguaia e conversamos sobre o Brasil, o Paraguai e a Argentina.

Ela nos atualizou sobre os dois países vizinhos e contou que seu marido uma vez chutou sua cachorrinha e queria que ela desse sua amiguinha. Ela disse que não e que estaria pronta a separar-se dele se ele continuasse com essa história. Hoje ele não só dá banho nela como também leva a cachorrinha para passear e também ao veterinário. Também conversamos com um agrônomo que falou sobre terra e inseminação e fertilização de gado. Enquanto falávamos o ônibus parou em uma rodoviária e umas monjas franciscanas que iam para Campo Mourão quase ficaram para trás, elas foram ao banheiro e não avisaram o motorista que tinha pressa e já ia saindo. Falei com ele e ele esperou. É preciso ficar atento.

Depois de doze horas chegamos em Ubiratã. A terra do Paraná é inconfundível.
Ficamos na casa do Jorge Olinto, tio do Marcelo, irmão de Dona Vanda. Ele dá muito apoio para a gente, gosta de música e quando estamos tocando ele chega e pede para tocar uma do Raul. Tocamos a do Pedro e do Peixuxa. Seu filho Elianai que é primo do Marcelo ajuda nuns vocais pois também gosta de cantar. É legal. Estamos em Ubiratã enquanto esperamos o Dito Leite, fazendeiro da região que nos levará para sua fazenda, onde ficaremos exilados na Comunidade São José. Por hora ficaremos por aqui e hoje à noite faremos uma festinha e receberemos umas visitas de uma galera que vem aqui para nos conhecer. Estamos aqui nesta tarde ensolarada chupando manga aqui no quintal enquanto esperamos o almoço servido gentilmente pela Juliana que está grávida e a qualquer momento apresentará ao mundo uma nova esperança.
Hoje é especial vai ter fogueira e ¨vai rolar um som, vai rolar um bom¨.
No quintal tem açaís, tangerinas e outras frutas. Acendemos um lampião para dar um visual tropeiro. Entre os convidados da festa estava o Valdeir que contou umas mentiras legais de um tempo de sua vida em que passou 5 anos no Mato Grosso e seus muitos contatos com animais nos deixaram emocionados, detalhes de comportamentos de felinos, antas, queixadas, boi-tatá, pontos de ouro. Uma vez uma onça preta rodeou o seu trator mas não chegou a atacá-lo devido ao farol que estava acesso e a deixou afastada.
Quando você está viajando, sua presença parece que incita as pessoas a investirem dentro de suas emoções passadas e também presentes e futuras. Isto propicia um enriquecimento nas idéias que é muito proveitoso. É como se agente estivesse apresentando um espelho para a outra pessoa, precisando ela se barbear ou fazer uma maquiagem.
Faz onze dias que estamos aqui. Na segunda-feira, depois de passarmos dois dias em Ubiratã, fomos com o Seu Chico até Iolanda num ônibus de linha. Lá chegando esperamos o Alziro chegar com a caminhonete que nos levou até a fazenda de Seu Chico, onde vamos ficar oficialmente. O nome deste lugar é Comunidade de São José. Nossa casa foi uma escola, dá pra ver o sinal onde ficava o quadro. Fora nossa casa apenas o salão de encontros e festas e a igreja, um campo de futebol (joguei rebatida - formei dupla com a Larissa e vencemos) e um campo de malha, esporte muito apreciado por aqui. Nos fins de semana os moradores vêm pra cá, nos outros dias nós é que vamos em suas casas.
Já fomos conhecer a família do Zelão, do Xexèo, do Alziro, Dona Elba. Todos nos recebem muito bem e em todas casas que vamos tocamos para eles. todos participam e cantam, o Zelão até tocou sua gaita com a gente e sua filha Larissa toca pandeiro e declamou uma poesia muito bonita do Pitoco. Ela canta muito bem. É muito rico esse contato com a gente daqui. O povo aqui é muito unido e tem um jeito muito bacana de viver em família, diferente da cidade. As casas são todas longe umas das outras e as pessoas da comunidade são unidas. Talvez essa distância das casas seja fundamental para essa união.
O campo anda rejeitado. Muitas casas aqui estão vazias. A sociedade se aprimorou para se estabelecer na urbanidade. Com os avanços e o conforto da civilização e da tecnologia industrial. Isso tem que ser repensado. Viver na roça está ficando só para alguns escolhidos. Quero ficar entre esse povo, me sinto bem e sei que é a salvação. Quero conhecer as outras comunidades daqui. Aqui quando você se relaciona com um morador, todas as outras casas se abrem para você e eles compartilham com você o que eles tem de mais bonito que são os momentos de viver.
Existe o mundo, e existe outros mundos. Cada lugar tem um estilo. Nenhum povoado é igual. Aqui é o sertão do Paraná. Estamos na beira do Piquiri. O mundo para mim agora é legal comigo. Sinto no modo como me tratam. Estou feliz e e férias mas faço um trabalho de contato, de interação social com essa gente. Gostaria que quem me conhece fizesse esse tipo de contato. Gente, vamos viajar mais. É MUITO BOM PARA O ESPÍRITO. Muitas andorinhas dão a certeza de um verão bem feito. Na próxima viagem vou convidar você.
Na varanda da casa do Zé Carlos (Xexèo) em prosas sem fim o dia amanheceu e tocamos até músicas que eu não conhecia. Histórias de assombração e de vida. Lições que ele nos deu. Xexèo só tem medo de cachorro, o resto ele encara. Fala e sempre sorrindo. Iluminando. Só às vezes faz cara de bravo quando chama a atenção de seu filho Douglas. Mas depois já ri de novo. Causos que tomam o formato de lendas. Já era madrugada quando iríamos embora, mas a prosa estava boa e ficamos até amanhecer quando o cèu passou de azul para rosa. A mágica da natureza tem cada truque. De todas histórias ficou na minha mente uma frase que uma senhora falou para ele: "Deus tem muito mais pra te dar do que Ele já deu."
Continuamos fazendo o circuito. Agora está chovendo, a chuva faz poesia no telhado. Trilha sonora de pássaros e trovões. Estou escrevendo e nada me passa no pensamento. Esse vazio da mente é meu território para tudo que a poesia incita. Já foi batido o feijão. Ajudei. É gostoso ir pra roça e tirar da terra o alimento da vida. O Dito Leite, fazendeiro que nos hospeda é o legítimo roceiro. Planta abóbora, verduras, palmito, feijão, milho... É uma aventura lidar com a terra. Ver as plantas se desenvolverem. quem planta colhe. Todo dia ele vai para suas roças. Às vezes eu o acompanho ou chego lá depois. Aprendo muito com isso. Obrigado Dito.
Esse circuito que fazemos é interessante e no futuro muitas pessoas podem se interessar.
Falei com o hildo e estou disposto a tocar na Companhia de Reis. Com certezavou voltar em
Dezembro e fazer parte da Companhia da Comunidade de São José. Vai ser demais e dá até uma ansiedade. Você está convidado. Contato:
dlindolfo@hotmail.com.
A gente fica espantado com o poder da música. Como as pessoas gostam de cantar e participar e chego a me espantar. Quando comecei a participar da Música e resolvi aprender a tocar não tinha noção deste alcance.
Às vezes sinto a viola como uma mãe. As mães choram com mais facilidade. Um dia ainda vou tocar bem porque até hoje não desisti. Toda nota que toco dedico à minha mãe que amava música e nunca ouvia música sentada, sempre de pé. Sei que ela me ouve porque o som quando adentra o espaço viaja num trem que vai para o infinito. Para mim a música é o ancestral transcendendo a geração.
Hoje vamos subir para Ubiratã. Esses dias aqui em São José foram muito proveitosos. Deu para aprender muita coisa. Ouvimos muitos causos hoje. Ganhei dois livrinhos de oração de Dona Elma e um terço também. Ela disse para eu rezar que as coisas vão bem. Nos dias que passamos aqui participamos de três rezas na Igreja. Sempre que fui me senti bem. Todo lugar tem pessoas de fé e aqui não foi diferente não. Fico feliz por me aproximar de gente de fé, pois as pessoas comuns são meio enjoativas, não tem muita graça não. Nas horas tristes da vida, só a fé nos dá conforto real. Quem já provou deste conforto me entende. Quando a paz reina no coração da gente é a fé que maestria.
Já me despedi de várias pessoas e senti o drama da despedida. De um jeito ou de outro a melancolia invade o sentimento e essa parte da viagem dá uma machucadinha sim.
O povo da comunidade preparou uma festa de despedida para nós. Vai ser na casa do Xexèo. Todo mundo vai pra lá. Tocamos umas quinze canções na festa. Depois o Marcelo palestrou para os que ficaram até o fim e disse umas coisas que emocionou todos. Aproveitei e deixei minha mensagem. Falei para eles que se as cidades acabarem os campos se mantém.
Uma parada na Comunidade de São Francisco antes de subir para Iolanda que fica antes de Ubiratã, num sítio em que Marcelo passava as férias em infância me inspirou um poema, o qual transcrevo aqui:

O SÍTIO ABANDONADO
(Dedicado a Marcelo Goom)

Desenho: Thiago da Silva Machado

Revi o sítio onde passava as férias
em infância.
A ânsia do contratempo espiral
golpeou meu coração
e aprisionou minhas lembranças.

O poço solitário
é uma vela apagada na escuridão.
As árvores
que não secaram ainda
são faróis entristecidos
e uma grevilha seca
mas ainda de pé
é a ressurreição impossível.

Meus olhos
desafinam o tom da minha visão.
Tudo que sinto
é uma saudade
que vai além da lembrança.
Só o vento que balança essas folhas
me lembra vida.
Só mesmo o abandono.

Porque todos se foram?
Porquê?

Vim aqui para sentir
tudo o que sinto agora.
Já vou indo embora.

Dos corações
que bateram por aqui
nenhum está presente
pra eu me despedir.

Na subida paramos em Iolanda e vimos 4 pessoas na praça (Diogo, Maristela, Dirceu e um outro que não lembro o nome) para perguntar o caminho para Ubiratã. Pediram pra gente descer da Brasilia e tocar pelo menos uma música para eles. Descemos e tocamos quatro. Como ainda ficaríamos três dias em Ubiratã combinamos de voltar no outro dia para fazermos uma festinha em Iolanda. No outro dia fomos e fizemos uma festa na praça. Muito vinho barato de garrafão e declamações de poemas, toque de canções e muita alegria. Que pessoal feliz. Nunca vi tanta animação. Vamos voltar amanhã. O Diogo tem muito talento. É um adolescente ainda e vai brilhar muito na música. Quando voltar em dezembro vou trazer uma viola de presente pra ele. Ele nunca pegou numa viola (bate um violãozinho) e quando pegou a minha ficou improvisando uns versos e não queria largar mais. Esse povo do interior não tem espaço nem incentivo para as artes. Tento incentivar porque também nunca tive apoio quando era criança. Meu pai fazia eu trabalhar em coisas que nunca foi minha área. Só depois de adulto é que fui abrindo os portões que me levaram a seguir o caminho que sigo hoje em dia. É assim. Você vai levando nome de vagabundo, maluco, sem-vergonha e outros e só depois é que os de fora fala assim: "Seu filho é um artista de muito talento e como dentro é o que por fora se apresenta até a família vai se convencendo. Se você aguentar todas as afrontas familiares e não desistir, você sobe de posto.

Hoje, quando viajo e vou pro sertão ou pra cidade sempre carrego minha violinha. Qualquer nota que toco tem o feeling de toda minha caminhada. Não toco ouvistoso mas é de coração. Aqui no Paraná fomos recebidos com status de avatar. Até carro para a gente passear nos arranjaram. NÃO MERECEMOS MAS AGRADECEMOS DE CORAÇÃO.

Obrigado Ubiratã, Iolanda e comunidade de São José. Escrevo estas últimas linhas desta narrativa da viagem banhadas em lágrimas para vocês. Até dezembro.

com amor / carinho / entusiasmo e boa vontade:

Dirceu LINDOLFO