Ela nos atualizou sobre os dois países vizinhos e contou que seu marido uma vez chutou sua cachorrinha e queria que ela desse sua amiguinha. Ela disse que não e que estaria pronta a separar-se dele se ele continuasse com essa história. Hoje ele não só dá banho nela como também leva a cachorrinha para passear e também ao veterinário. Também conversamos com um agrônomo que falou sobre terra e inseminação e fertilização de gado. Enquanto falávamos o ônibus parou em uma rodoviária e umas monjas franciscanas que iam para Campo Mourão quase ficaram para trás, elas foram ao banheiro e não avisaram o motorista que tinha pressa e já ia saindo. Falei com ele e ele esperou. É preciso ficar atento.
Depois de doze horas chegamos em Ubiratã. A terra do Paraná é inconfundível.
Ficamos na casa do Jorge Olinto, tio do Marcelo, irmão de Dona Vanda. Ele dá muito apoio para a gente, gosta de música e quando estamos tocando ele chega e pede para tocar uma do Raul. Tocamos a do Pedro e do Peixuxa. Seu filho Elianai que é primo do Marcelo ajuda nuns vocais pois também gosta de cantar. É legal. Estamos em Ubiratã enquanto esperamos o Dito Leite, fazendeiro da região que nos levará para sua fazenda, onde ficaremos exilados na Comunidade São José. Por hora ficaremos por aqui e hoje à noite faremos uma festinha e receberemos umas visitas de uma galera que vem aqui para nos conhecer. Estamos aqui nesta tarde ensolarada chupando manga aqui no quintal enquanto esperamos o almoço servido gentilmente pela Juliana que está grávida e a qualquer momento apresentará ao mundo uma nova esperança.
Hoje é especial vai ter fogueira e ¨vai rolar um som, vai rolar um bom¨.
No quintal tem açaís, tangerinas e outras frutas. Acendemos um lampião para dar um visual tropeiro. Entre os convidados da festa estava o Valdeir que contou umas mentiras legais de um tempo de sua vida em que passou 5 anos no Mato Grosso e seus muitos contatos com animais nos deixaram emocionados, detalhes de comportamentos de felinos, antas, queixadas, boi-tatá, pontos de ouro. Uma vez uma onça preta rodeou o seu trator mas não chegou a atacá-lo devido ao farol que estava acesso e a deixou afastada.
Quando você está viajando, sua presença parece que incita as pessoas a investirem dentro de suas emoções passadas e também presentes e futuras. Isto propicia um enriquecimento nas idéias que é muito proveitoso. É como se agente estivesse apresentando um espelho para a outra pessoa, precisando ela se barbear ou fazer uma maquiagem.
Faz onze dias que estamos aqui. Na segunda-feira, depois de passarmos dois dias em Ubiratã, fomos com o Seu Chico até Iolanda num ônibus de linha. Lá chegando esperamos o Alziro chegar com a caminhonete que nos levou até a fazenda de Seu Chico, onde vamos ficar oficialmente. O nome deste lugar é Comunidade de São José. Nossa casa foi uma escola, dá pra ver o sinal onde ficava o quadro. Fora nossa casa apenas o salão de encontros e festas e a igreja, um campo de futebol (joguei rebatida - formei dupla com a Larissa e vencemos) e um campo de malha, esporte muito apreciado por aqui. Nos fins de semana os moradores vêm pra cá, nos outros dias nós é que vamos em suas casas.
Já fomos conhecer a família do Zelão, do Xexèo, do Alziro, Dona Elba. Todos nos recebem muito bem e em todas casas que vamos tocamos para eles. todos participam e cantam, o Zelão até tocou sua gaita com a gente e sua filha Larissa toca pandeiro e declamou uma poesia muito bonita do Pitoco. Ela canta muito bem. É muito rico esse contato com a gente daqui. O povo aqui é muito unido e tem um jeito muito bacana de viver em família, diferente da cidade. As casas são todas longe umas das outras e as pessoas da comunidade são unidas. Talvez essa distância das casas seja fundamental para essa união.
O campo anda rejeitado. Muitas casas aqui estão vazias. A sociedade se aprimorou para se estabelecer na urbanidade. Com os avanços e o conforto da civilização e da tecnologia industrial. Isso tem que ser repensado. Viver na roça está ficando só para alguns escolhidos. Quero ficar entre esse povo, me sinto bem e sei que é a salvação. Quero conhecer as outras comunidades daqui. Aqui quando você se relaciona com um morador, todas as outras casas se abrem para você e eles compartilham com você o que eles tem de mais bonito que são os momentos de viver.
Existe o mundo, e existe outros mundos. Cada lugar tem um estilo. Nenhum povoado é igual. Aqui é o sertão do Paraná. Estamos na beira do Piquiri. O mundo para mim agora é legal comigo. Sinto no modo como me tratam. Estou feliz e e férias mas faço um trabalho de contato, de interação social com essa gente. Gostaria que quem me conhece fizesse esse tipo de contato. Gente, vamos viajar mais. É MUITO BOM PARA O ESPÍRITO. Muitas andorinhas dão a certeza de um verão bem feito. Na próxima viagem vou convidar você.
Na varanda da casa do Zé Carlos (Xexèo) em prosas sem fim o dia amanheceu e tocamos até músicas que eu não conhecia. Histórias de assombração e de vida. Lições que ele nos deu. Xexèo só tem medo de cachorro, o resto ele encara. Fala e sempre sorrindo. Iluminando. Só às vezes faz cara de bravo quando chama a atenção de seu filho Douglas. Mas depois já ri de novo. Causos que tomam o formato de lendas. Já era madrugada quando iríamos embora, mas a prosa estava boa e ficamos até amanhecer quando o cèu passou de azul para rosa. A mágica da natureza tem cada truque. De todas histórias ficou na minha mente uma frase que uma senhora falou para ele: "Deus tem muito mais pra te dar do que Ele já deu."
Continuamos fazendo o circuito. Agora está chovendo, a chuva faz poesia no telhado. Trilha sonora de pássaros e trovões. Estou escrevendo e nada me passa no pensamento. Esse vazio da mente é meu território para tudo que a poesia incita. Já foi batido o feijão. Ajudei. É gostoso ir pra roça e tirar da terra o alimento da vida. O Dito Leite, fazendeiro que nos hospeda é o legítimo roceiro. Planta abóbora, verduras, palmito, feijão, milho... É uma aventura lidar com a terra. Ver as plantas se desenvolverem. quem planta colhe. Todo dia ele vai para suas roças. Às vezes eu o acompanho ou chego lá depois. Aprendo muito com isso. Obrigado Dito.
Esse circuito que fazemos é interessante e no futuro muitas pessoas podem se interessar.
Falei com o hildo e estou disposto a tocar na Companhia de Reis. Com certezavou voltar em
Dezembro e fazer parte da Companhia da Comunidade de São José. Vai ser demais e dá até uma ansiedade. Você está convidado. Contato: dlindolfo@hotmail.com.
A gente fica espantado com o poder da música. Como as pessoas gostam de cantar e participar e chego a me espantar. Quando comecei a participar da Música e resolvi apren
Às vezes sinto a viola como uma mãe. As mães choram com mais facilidade. Um dia ainda vou tocar bem porque até hoje não desisti. Toda nota que toco dedico à minha mãe que amava música e nunca ouvia música sentada, sempre de pé. Sei que ela me ouve porque o som quando adentra o espaço viaja num trem que vai para o infinito. Para mim a música é o ancestral transcendendo a geração.
Hoje vamos subir para Ubiratã. Esses dias aqui em São José foram muito proveitosos. Deu para aprender muita coisa. Ouvimos muitos causos hoje. Ganhei dois livrinhos de oração de Dona Elma e um terço também. Ela disse para eu rezar que as coisas vão bem. Nos dias que passamos aqui participamos de três rezas na Igreja. Sempre que fui me senti bem. Todo lugar tem pessoas de fé e aqui não foi diferente não. Fico feliz por me aproximar de gente de fé, pois as pessoas comuns são meio enjoativas, não tem muita graça não. Nas horas tristes da vida, só a fé nos dá conforto real. Quem já provou deste conforto me entende. Quando a paz reina no coração da gente é a fé que maestria.
Já me despedi de várias pessoas e senti o drama da despedida. De um jeito ou de outro a melancolia invade o sentimento e essa parte da viagem dá uma machucadinha sim.
O povo da comunidade preparou uma festa de despedida para nós. Vai ser na casa do Xexèo. Todo mundo vai pra lá. Tocamos umas quinze canções na festa. Depois o Marcelo palestrou para os que ficaram até o fim e disse umas coisas que emocionou todos. Aproveitei e deixei minha mensagem. Falei para eles que se as cidades acabarem os campos se mantém.
Uma parada na Comunidade de São Francisco antes de subir para Iolanda que fica antes de Ubiratã, num sítio em que Marcelo passava as férias em infância me inspirou um poema, o qual transcrevo aqui:
O SÍTIO ABANDONADO
(Dedicado a Marcelo Goom)

Revi o sítio onde passava as férias
em infância.
A ânsia do contratempo espiral
golpeou meu coração
e aprisionou minhas lembranças.
O poço solitário
é uma vela apagada na escuridão.
As árvores
que não secaram ainda
são faróis entristecidos
e uma grevilha seca
mas ainda de pé
é a ressurreição impossível.
Meus olhos
desafinam o tom da minha visão.
Tudo que sinto
é uma saudade
que vai além da lembrança.
Só o vento que balança essas folhas
me lembra vida.
Só mesmo o abandono.
Porque todos se foram?
Porquê?
Vim aqui para sentir
tudo o que sinto agora.
Já vou indo embora.
Dos corações
que bateram por aqui
nenhum está presente
pra eu me despedir.
Na subida paramos em Iolanda e vimos 4 pessoas na praça (Diogo, Maristela, Dirceu e um outro que não lembro o nome) para perguntar o caminho para Ubiratã. Pediram pra gente descer da Brasilia e tocar pelo menos uma música para eles. Descemos e tocamos quatro. Como ainda ficaríamos três dias em Ubiratã combinamos de voltar no outro dia para fazermos uma festinha em Iolanda. No outro dia fomos e fizemos uma festa na praça. Muito vinho barato de garrafão e declamações de poemas, toque de canções e muita alegria. Que pessoal feliz. Nunca vi tanta animação. Vamos voltar amanhã. O Diogo tem muito talento. É um adolescente ainda e vai brilhar muito na música. Quando voltar em dezembro vou trazer uma viola de presente pra ele. Ele nunca pegou numa viola (bate um violãozinho) e quando pegou a minha ficou improvisando uns versos e não queria largar mais. Esse povo do interior não tem espaço nem incentivo para as artes. Tento incentivar porque também nunca tive apoio quando era criança. Meu pai fazia eu trabalhar em coisas que nunca foi minha área. Só depois de adulto é que fui abrindo os portões que me levaram a seguir o caminho que sigo hoje em dia. É assim. Você vai levando nome de vagabundo, maluco, sem-vergonha e outros e só depois é que os de fora fala assim: "Seu filho é um artista de muito talento e como dentro é o que por fora se apresenta até a família vai se convencendo. Se você aguentar todas as afrontas familiares e não desistir, você sobe de posto.
Hoje, quando viajo e vou pro sertão ou pra cidade sempre carrego minha violinha. Qualquer nota que toco tem o feeling de toda minha caminhada. Não toco ouvistoso mas é de coração. Aqui no Paraná fomos recebidos com status de avatar. Até carro para a gente passear nos arranjaram. NÃO MERECEMOS MAS AGRADECEMOS DE CORAÇÃO.
Obrigado Ubiratã, Iolanda e comunidade de São José. Escrevo estas últimas linhas desta narrativa da viagem banhadas em lágrimas para vocês. Até dezembro.
com amor / carinho / entusiasmo e boa vontade:
Dirceu LINDOLFO